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História
da Rede Amiga da Criança
As articulações
iniciais de organizações governamentais e não-governamentais,
que resultaram na criação da Rede Amiga da Criança
começaram no início de 2000. No entanto, as condições
que possibilitaram a construção destas articulações
foram anteriores e podem ser compreendidas a partir da experiência
do Projeto Estrela da Rua e, mais recentemente, da inserção
e apoio da Fondation Terre des Hommes (Tdh) de Lausanne, na área
da criança e do adolescente em São Luís, Maranhão.
A contribuição
destas referências para a criação da Rede Amiga
da Criança não seria possível se não houvesse,
entre as organizações e os profissionais que efetivam
suas práticas concretas, uma ambiência favorável,
ou seja, uma cultura própria de trabalho articulado. E além
disso, o desejo compartilhado de alterar a realidade de exclusão
e de garantir os direitos das crianças e adolescentes que vivenciam
as diversas situações de rua.
E assim
começou - Vários fatores contribuíram para
a construção da idéia de um trabalho em Rede, fazendo
com que, entre março e junho de 2000, o conjunto das organizações
avançasse na definição da concepção,
objetivos, formas de gestão e funcionamento, visando produzir
um impacto significativo para a redução da incidência
de crianças e adolescentes em situação de rua em
São Luís.
Um dos fatores significativos
para a criação da Rede foi a realização
de um seminário, em março de 2000, promovido pelo Conselho
Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de
São Luís, com participação de várias
organizações não-governamentais da área
da infância e da adolescência4 . O objetivo era analisar
a situação das crianças e adolescentes e definir
prioridades para os investimentos do Fundo Municipal da Criança
e Adolescente (FMCA).
A análise apontou como
grande desafio mudar a realidade de crianças e adolescentes em
situação de rua, o que foi definido como uma linha de
ação prioritária. Em função desta
prioridade, o CMDCA deliberou que 75% dos recursos do FMCA seriam destinados
às ações voltadas para estas crianças e
adolescentes. E, mais adiante, com a criação da Rede,
deliberou também que para as organizações serem
agraciadas com o recurso deveriam estar articuladas nela.
Neste seminário, também
foi muito importante a definição do papel de cada organização
a partir do potencial e experiência de cada uma no enfrentamento
da questão da criança e do adolescente em situação
de rua. Na ocasião, foi realizado um mapeamento das ações
das organizações dirigidas a este segmento, clareando
a especificidade de cada uma: na educação de rua, no atendimento
em abrigos e em meio aberto, no atendimento aos usuários de drogas,
na inserção e reinserção das crianças
e adolescentes na família e na escola.
A formação dos
educadores era realizada por cada organização e neste
seminário foi percebida a importância de uma proposta unificada
e coletiva para uma formação dirigida ao conjunto dos
educadores que trabalhavam diretamente com crianças e adolescentes
em situação de rua. Naquele momento, foi indicado como
responsável pela formação o MNMMR. Participaram
deste encontro as seguintes organizações: Tdh, CDMP, CMDCA,
Fórum DCA, Pastoral do Menor, MNMMR, Desafio Jovem do Maranhão
(DJOMA), Sociedade da Redenção e Lar Dom Calábria.
Este processo de fortalecimento
da idéia de Rede favoreceu a acumulação de discussões
coletivas e reflexões individuais, o amadurecimento e o crescimento,
onde cada fato novo, cada novo conhecimento apreendido contribuía
para tecer as relações e conexões entre os “fios”
da rede. Neste sentido, não houve um fato determinante, mas vários
acontecimentos entrelaçados e iluminadores, gerando uma rede
de inter-relações.
Antônio Carlos Gomes da
Costa, estudioso e militante do movimento de crianças e adolescentes,
contribuiu significativamente para a compreensão da proposta
estratégica de um trabalho em rede, através da sua participação
no Encontro Nacional dos Dez Anos do ECA, promovido pela Pastoral da
Criança, em Brasília, e em um evento de sensibilização
com os gestores das políticas públicas para crianças
e adolescentes, em São Luís. Ele esclareceu sobre a importância
de cada organização perceber a sua incompletude, ou seja,
de que não pode realizar todas as ações necessárias
de forma isolada, sozinha. Mostrou que o lugar de tecer a rede era o
próprio Município, que deveria ser fortalecido no processo
de municipalização das políticas e que o Conselho
de Gestão deveria ser o espaço articulador de construção
das relações de uma rede. Estas idéias empolgaram
e impulsionaram os militantes e profissionais das organizações
que estavam iniciando a rede.
Empenhando
a palavra - No mês de abril do ano de 2000, as organizações
iniciaram internamente um processo de discussão sobre a sua participação
na Rede. No encontro geral de maio, cada organização apresentou
sua proposta de contribuição, de acordo com a sua especificidade
de ação na área da infância e adolescência.
Algumas na formação de educadores, outras no atendimento
direto nas ruas e nas retaguardas, na organização de meninos
e meninas, na inserção na escola, etc.
O encontro geral de junho, marcante
pela definição da forma de gestão e funcionamento
da Rede, também definiu um GT provisório para elaborar
uma proposta de texto para o Protocolo de Intenções. O
processo de discussão desenvolvido facilitou a compreensão
do significado do Protocolo de Intenções e a sua aprovação,
por unanimidade, na primeira Assembléia da Rede Amiga da Criança,
realizada no dia 27 de junho de 2000 com participação
do conjunto das organizações integrantes. No Protocolo,
cada organização assume sua responsabilidade e competência
junto ao coletivo da Rede. A idéia do Protocolo de Intenções
foi resgatada da experiência do Projeto Estrela da Rua.
Após a aprovação
do Protocolo de Intenções, a assembléia propôs
a realização de um evento oficial de assinatura do documento,
com confraternização e promoção da visibilidade
da Rede. O GT de marketing foi responsável pelo planejamento
do referido evento, que aconteceu no dia 15 de agosto de 2000, no auditório
do Ministério Público, no Centro. Participaram da cerimônia
de assinatura do primeiro Protocolo de Intenções todas
as organizações integrantes15 da Rede naquele período.
A solenidade de assinatura do Protocolo de Intenções foi
marcante, mobilizadora e energizante para o conjunto das pessoas e organizações
que participaram do processo de articulação. Houve a articipação
de grupos de crianças e adolescentes atendidas pelas organizações,
apresentação de coral, coquetel e um alegre acolhimento.
Para as crianças e adolescentes foi um momento inicial de compreensão
sobre a Rede e de sentirem-se integrantes dela.
Fonte:livro "Rede Amiga da
Criança - Uma experiência de articulação
em defesa dos direitos de crianças e adolescentes em situação
de rua". Disponível para download no ícone Publicações,
deste site.